Sua empresa sabe a diferença entre “usar dívida” e “viver de dívida”. É uma diferença enorme. No papel, tudo é dívida. Na vida real, são dois mundos diferentes, opostos. A dinâmica parece a mesma: O crédito entra no caixa, a empresa ganha fôlego, o plano continua. Na prática, um é estratégia e o outro, vício.
A boa dívida
O endividamento bom é aquele que compra tempo e escala. Ele financia crescimento com lógica econômica: aumenta capacidade, produtividade, margem e geração de caixa futura.
É dívida com destino. Ela se paga e traz prosperidade. Tem projeto, tem cronograma, tem retorno. É alavancagem usada como ferramenta para acelerar valor – e não como muleta para esconder fragilidades.
Dívida tóxica
Esse é o calvário do mal empresário. O endividamento tóxico nasce quando o crédito substitui parte ou toda geração de caixa. A empresa começa a “salvar” a empresas com dinheiro de banco. Autoengano – a conta vai chegar e vai ser muito maior. Em um mês, paga o fornecedor. No outro, paga a folha. No outro, renegocia imposto e assim segue. O capital de giro é o mercado de crédito.
É o ciclo silencioso de endividar, endividar, endividar. E vai se enganando, sempre justificando que “é só até normalizar”. O problema é que o crédito caro não normaliza empresa.
A regra é simples: O crédito compra tempo. Mas o tempo, sem ou frágil execução, vira custo. A conta chega em juros, spreads, covenants, garantias e desgaste operacional. Pior: quando o caixa não escala, a dívida não vira ponte para outra dívida. Uma estrada sem saída.
Nesse ponto, a pergunta que separa o saudável do perigoso é simples: a dívida está financiando crescimento ou está financiando sobrevivência?
Se a resposta for sobrevivência, o risco já está instalado. Porque sobrevivência não gera retorno. Ela consome energia, gestão e reputação. E o mercado percebe rápido.
Existe ainda um detalhe que muitos ignoram: o banco não é só um fornecedor de dinheiro. Ele é um termômetro de confiança. Quando a empresa apresenta boa geração de caixa, previsibilidade e disciplina financeira, o crédito tende a ser abundante e negociável.
Se na empresa vive no modo “rolagem eterna”, o jogo muda. A liquidez do banco não é infinita, é condicional. E se a geração de caixa não sustenta mais a estrutura, o banco não passa pano, tira até o cafezinho e não importa com sua narrativa: Corta limite, reduz exposição, encurta prazo ou aumenta custo.
E, logo o telefone toca, vem o movimento mais duro: a exigência de garantia real.
Logo a ficha cai: o patrimônio começa a substituir a geração de caixa. Como o caixa não escala, entra o imóvel, a fazenda, máquinas, galpão, a casa do sócio. A dívida deixa de ser financeira e vira patrimonial. O risco, que antes estava na operação, migra para a família, para o legado e para a governança.
Endividamento bom protege o negócio.
Endividamento tóxico sequestra o negócio.
Por isso, como CFO, eu resumiria a gestão de dívida em três regras práticas:
- Dívida precisa de tese: por que existe, onde entra e quando sai.
- Dívida precisa de lastro: caixa recorrente real, não esperança.
- Dívida precisa de limite: quando ultrapassa, vira um vício.
Alavancagem é potência. Mas potência sem direção vira acidente. E, em finanças corporativas, quase todo acidente começa com uma frase perigosa: “só mais esse empréstimo”. Revise suas finanças nos últimos 18 meses e me responda: sua dívida foi boa ou tóxica?

FABIO FERREIRA
Linkedin: Fabio Ferreira Costa Júnior














