Rafael Vaz
O Mounjaro (tirzepatida), fabricado pela Eli Lilly, chegou ao Brasil em 2025 com aprovação para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, e rapidamente se consolidou como um dos principais motores do setor farmacêutico. O País é, atualmente, o segundo que mais busca informações sobre o medicamento, atrás apenas dos Estados Unidos.
No mercado brasileiro, o impacto financeiro é expressivo: os agonistas de GLP-1, popularmente chamados de “canetas emagrecedoras”, movimentaram cerca de R$ 10 bilhões em 2025, o que representa aproximadamente 4% do varejo farmacêutico nacional, segundo relatório do Itaú BBA.
Estudos da XP Research chegaram a estimativas similares, apontando entre R$ 9 e 10 bilhões para esse segmento. O crescimento foi impulsionado por um aumento de 77% nas importações desses medicamentos apenas no terceiro trimestre de 2025.
Preços e dosagens
O Mounjaro é posicionado como um produto de alto valor, com preços que variam conforme a dosagem. O tratamento mensal, com quatro canetas, apresenta preços médios com descontos que vão de R$ 1.400 para a dose de 2,5 mg, até R$ 3.300 para a dose de 15 mg. O preço máximo ao consumidor chega a R$ 1.907 para a dose inicial e pode ultrapassar R$ 3.780 nas doses mais altas. Apesar do alto custo, a demanda tem sido elevada, especialmente em uso off-label para emagrecimento, refletindo a eficácia do medicamento, que pode proporcionar perda de peso de até 22,5%, conforme em estudos clínicos.
O Brasil possui cerca de 31% da população com obesidade, o que garante uma base de consumidores significativa, ainda que limitada pelo preço elevado. A entrada de novas doses intermediárias, como 7,5 mg e 10 mg, lançadas em 2025, ampliou a disponibilidade e ajustou o tratamento para atender a mais pacientes.
Até abril de 2025, a semaglutida, comercializada como Wegovy e Ozempic pela Novo Nordisk, dominava o mercado brasileiro com 96,6% das vendas. A chegada do Mounjaro, em maio, mudou o cenário: a tirzepatida alcançou 49,6% do market share em valor de vendas até agosto, evidenciando a força da Eli Lilly no País. No mesmo período, entraram no mercado nacional as primeiras versões brasileiras da liraglutida, Olire e Lirux, produzidas pela EMS após a queda da patente, as quais alcançaram 1,4% de participação em valor e 3,5% em unidades. Projeções indicam que, com a queda da patente da semaglutida em março de 2026, os preços podem cair até 30% no primeiro ano e 50% em cinco anos, abrindo espaço para um mercado de genéricos que poderá movimentar R$ 8,4 bilhões já em 2027.
O sucesso das “canetas emagrecedoras” já é sentido pelas grandes redes de farmácias, como RD Saúde, Pague Menos e Panvel, onde esses medicamentos representam entre 8% e 9% da receita. Até 2030, estima-se que essa participação chegue a 20%, com cerca de 15 milhões de usuários e um mercado total que pode atingir R$ 50 bilhões. Além disso, estudos nos Estados Unidos mostram que o uso desses medicamentos impacta outros setores, reduzindo o consumo de salgadinhos, doces e biscoitos entre os usuários, o que pode repercutir na indústria de alimentos e bebidas de alto teor calórico.
Indústria farmacêutica e fiscalização
Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas de Goiás, Marçal Soares, o impacto do Mounjaro no Estado ainda é limitado. “Em Goiás não há nenhuma indústria que fabrique, importe ou distribua o produto. Por isso, para nós, neste momento, não há impacto”, afirma.
Ele explica que, nacionalmente, o mercado está aquecido. “Hoje, temos protocolados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) 20 pedidos para esses produtos, de empresas nacionais e internacionais. Em breve, teremos uma oferta muito grande, com preços mais baixos, menos contrabando e menos circulação de produtos ilegais. A Anvisa está muito bem alinhada com agências internacionais, então não vejo problemas de regulação no Brasil”, completa.
A superintendente de Vigilância Sanitária, Ambiental e Saúde do Trabalhador da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás, Eliane Rodrigues da Cruz, explica que o maior desafio não é o mercado regular, mas o paralelo. “O problema são produtos com origem duvidosa, sem rótulo claro, sem bula, muitos falsificados ou adulterados. Encontramos farmácias de manipulação que oferecem múltiplas doses e até estabelecimentos que nem são de saúde, como salões de beleza e lojas de estética”, alerta.
Segundo Eliane, o Estado monitora o mercado regular por meio do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) e trabalha em parceria com Procon, Decon, Polícia Civil e forças policiais para coibir o mercado ilegal. Além disso, campanhas educativas alertam a população sobre os riscos do uso de produtos não regulados.
Em agosto do ano passado, a Anvisa proibiu a manipulação da semaglutida, usada em canetas de emagrecimento como Ozempic e Wegovy, e no medicamento por via oral Rybelsus. Em despacho publicado no Diário Oficial da União, a agência estabeleceu critérios específicos para importação e manipulação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) agonistas do GLP-1, hormônio utilizado em tratamentos de diabetes tipo 2 e obesidade.
Segundo a decisão, os insumos obtidos por via biotecnológica — caso da semaglutida — só podem ser importados para manipulação se forem do mesmo fabricante registrado no Brasil. A Anvisa esclareceu: “Atualmente, a semaglutida possui registro apenas como produto biotecnológico. Portanto, não é permitida a importação nem a manipulação da semaglutida sintética até que exista um medicamento registrado com o IFA sintético”.
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) avaliou a proibição como um passo essencial para proteger a população “contra práticas que colocam em risco sua saúde e minam a confiança na medicina baseada em evidências”.
Para a Novo Nordisk, detentora da patente da semaglutida e fabricante do Ozempic, Wegovy e Rybelsus, a medida da Anvisa representa um avanço para a saúde pública: “Medicamentos irregulares não oferecem garantia de pureza, dosagem correta, estabilidade ou esterilidade, podendo resultar em ineficácia do tratamento, reações adversas graves e contaminação, colocando a saúde e segurança do paciente em risco”, destacou a empresa em nota.
Em nota enviada à Revista Leitura Estratégica, a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) afirmou que “cresce de forma preocupante a manipulação indiscriminada de peptídeos injetáveis complexos”, como os análogos de GLP-1, realizada “em escala industrial, com importação massiva de insumos sem procedência e campanhas publicitárias voltadas ao público leigo”. A entidade destaca que esses produtos “não passam por estudos clínicos ou validações formais, não têm eficácia ou segurança comprovadas e contrariam normas da Anvisa”, expondo pacientes a “riscos graves, como contaminação, subdosagem, superdosagem e falta de estabilidade”.
Segundo a Interfarma, esse cenário configura “descumprimento da RDC nº 67/2007” e alimenta “um mercado paralelo sem controle sanitário, marcado por conflitos de interesse e uso irracional de medicamentos”. A associação afirma que “a manipulação desses medicamentos é tecnicamente inviável e insegura em ambiente magistral”, pois exige “padrões rigorosos de pureza, esterilidade e estabilidade”, aproximando esses produtos de medicamentos biológicos e tornando-os “incompatíveis com o arcabouço regulatório atual das farmácias de manipulação”.
Futuro do mercado
O setor segue em expansão. Estima-se que, até 2030, o mercado de agonistas de GLP-1 no Brasil alcance pelo menos R$ 50 bilhões, com cerca de 15 milhões de usuários. A queda de patente da semaglutida, prevista para março de 2026, deve reduzir os preços em até 30% no primeiro ano e 50% em cinco anos, abrindo espaço para genéricos que podem movimentar R$ 8,4 bilhões já em 2027.
Para Marçal Soares, a evolução do mercado passa pelo controle regulatório e pela inovação tecnológica. Segundo ele, o futuro deve ser marcado por produtos biológicos e peptídeos sintéticos, mais potentes e específicos tanto para o tratamento do diabetes quanto para o controle de peso. A tendência, afirma, é a consolidação de um mercado com alta rastreabilidade e segurança.
Eliane Rodrigues complementa: “Nosso papel é garantir que esses produtos só cheguem ao paciente após comprovação de eficácia e segurança. Com o aumento da demanda, fiscalização e conscientização são essenciais para proteger a saúde da população”, conclui.













