A era da atenção embute o risco de se tornar, para muitos, a era da desatenção. A doença crônica dos adultos infantilizados pela tela e pela vida. Tudo quer sua audiência, mas o olhar, quando erra, vira distração. Todo excesso é vício.
As perguntas de um milhão de views são: quanto vale sua atenção para você? Você está atento a quê? Aos amigos, aos vídeos, ao vivo, aos vícios? Você está atento a você? Você vê onde você anda?
Você se tornou um post ambulante sedento por curtida aleatória?
Você nega ou assume o quanto essa doença te machuca? Você não se vê doente, né?
Se é assim, moderado ou viciado, neste universo, você é uma peça do Lego da vida e saiba que tudo quer sua audiência e você, sem perceber, quer ser a audiência de tudo.
O objetivo é te distrair e te prender ali.
É comportamento humano se modificando.
Como diria Caetano, em sua canção “Divino Maravilhoso”:
Atenção/Precisa ter olhos firmes/Pra este Sol/Para essa escuridão. (…)_É preciso estar atento e forte/Não temos tempo de temer a morte.
Tempo e escuridão são duas palavras muito importantes nesta música e na sua vida. Como você vende seu tempo para um algoritmo e quanto você ganha em troca? Dependendo da maturidade e evolução no tema, as respostas podem ser enviesadas e distantes (distraídas). Sabe o porquê? Porque tudo parece divino e maravilhoso, mas não é bem assim. Segue o fio.
Mas, por que este assunto, agora, Leandro?
A resposta é saúde mental. Você perde o poder da escolha, de qualificar o que deseja. É como se, no passado, vinte ou trinta anos atrás, tivéssemos 5 mil livros no quarto e, a cada minuto, abríssemos um e lêssemos um parágrafo, uma frase, e abandonássemos. Abre outro, um parágrafo. E outro, uma linha. E outro, outro, outro. E ficasse nessa jornada infinita o ano todo. É o cérebro em loop, achando-se um super-rico em dados, letras, páginas.
Ao fechar doze meses, contabilizaria zero livro realmente lido.
Você não foi enganado. É mais um autoengano da vida.
E você percebe que foi um robozinho alimentando um algoritmo (ou alienado) que te sacia com temas que te agradam e vai modificando seu modo de consumo de conteúdo. Te vicia. Vai de mensagens de livros e filmes para batidas de caminhão, mulheres seminuas, bolos gostosos, unhas encravadas, vida alheia de famosos e subfamosos (seres quase idiotas e engraçados), aquela música que você não pediu que te lembra o passado (…) e seu cérebro não larga mais o looping.
É pior que cocaína.
Os brasileiros ficam online, em média, cerca de 9 horas e 13 minutos por dia, muito superior à média global. Por ano, isso daria 3.313 horas. Em doze meses, daria para fazer quase dez cursos de MBAs. Isto é incrível. Quantos MBAs você fez no ano passado? Também daria para fazer três cursos de idiomas completos (de zero a altamente fluente). Em média, isso requer mil horas de estudo. Você começou e fechou algum curso de idioma em 2025?
Você pode até dizer, eu não fico nem a metade disso (4 horas por dia). Quantas horas você fica com seu filho? Quantos livros você leu no ano passado? Quantos filmes assistiu no cinema? Foi a quantos shows? Quanto tempo gastou com cursos, caminhadas, uma ligação para um amigo que não fala faz tempo ou quantas vezes deixou de fazer algo porque está com preguiça e ficou em casa no celular?
Não era preguiça.
É seu cérebro viciado te pedindo mais alguns minutos para navegar. É a doença da atenção comendo suas pernas, seu tempo e te entregando linhas, parágrafos vazios de vida. Te isolando. E seus filhos e sobrinhos, são assim também?
É a nova cocaína fazendo efeito.
Esse fenômeno silencioso ocupa mentes, implanta excesso de estímulos e cria uma busca eterna por validação social, ao mesmo tempo que te isola. Ao mesmo tempo, um relógio gigante gira dentro do seu celular, pagando métricas de audiência para alguém. Você perde parte da sua vida e financia a vida de novos milionários banais, que vão jogar na sua cara a riqueza que tiraram da sua minutagem.
Cômico ou patético?
Sua profundidade zera. Você vira um ser de superfície – um mais do mesmo. Sabe o que todo mundo sabe. Não sabe nada além disso. Fica gordo e pesado vendo vídeo de academia e bombadões. Limitado e comum assistindo reels de teorias ‘inteligentes’. Tomando Sidra Cereser curtindo posts de vinho Petros 2000. Rindo sozinho no sofá das festas de gente alegre e rica – que você nem conhece e acha que é amiga. Até que dia vai ficar assim?
Mas têm questões mais agravantes no coletivo quando o uso é desregrado. Depressão, solidão, cansaço cognitivo, vícios em jogos e pornografia, desunião familiar e suicídio.
A internet não é um mal, muito pelo contrário. Em sua grande maioria, boa parte da vida está conectada nela, e os ganhos são visíveis e incomparáveis. A questão é o quanto isso é bônus e quando é ônus. Questionar se estamos produtivos e usando bem a ferramenta ou se estamos preguiçosos e doentes é abrir um olhar para entender que precisamos estar em estado permanente de vigilância emocional.
Em 2026, fique na internet o necessário, seja mais seletivo. Leia a Leitura Estratégica e/ou coisas que te façam bem e melhor. No entanto, leia um livro por mês, vá mais ao cinema e ao teatro, visite amigos antigos. Vá tomar uma cerveja e aliviar a pressão. Viva mais a vida e menos a tela. Não demonize a internet, mas não a endeuse.
Ela é útil, mas não pode te transformar em um inútil. Feliz 2026.

Leandro Resende, editor-chefe da Leitura Estratégica.














