Por Rafael Mesquita
O interesse pelo universo do marido e das pessoas com quem convivia fez Sucena Hummel, 44 anos, buscar a contabilidade. A história era para ser bem diferente. Estudante do curso de Direito, a ideia era apenas realizar um período de estágio na área jurídica do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis de Goiás (Sescon). Mas quis o destino que ela iniciasse um namoro que logo se tornou uma união com Edson Cândido Pinto, presidente da entidade.
“Foram dois meses entre o início da relação e a gente morar junto. Para nós, foi tudo tão natural. Íamos perder tempo para quê?”, brinca.
Sucena mal conhecia a contabilidade, mas a convivência fez com que se interessasse cada vez mais pelo assunto. “Me sentia perdida nos jantares com meu marido conversando com os amigos sobre o tema e eu ouvindo conversas sobre afazeres domésticos. Aquilo me dava um sono”, diverte-se. Ela estava decidida a entender e a participar desse mundo, por isso, iniciou o curso. “Acabei me apaixonando pela contabilidade, que se transformou na minha primeira opção profissional”, afirma.
Após concluir a nova graduação, começou a atuar na área dentro do próprio Sescon. “Meu trabalho e as pessoas que eu convivia dentro do sindicato me incentivaram a ingressar de vez na contabilidade. Conhecer o mundo deles fez muita diferença para mim”, avalia. O objetivo era sempre se aperfeiçoar, por isso, fez pós-graduação, MBA e até uma nova graduação, em Letras. “Queria melhorar a escrita, a fala e sempre gostei de estudar”, explica.
Em 2019, Sucena já ocupava um cargo de direção no Sindicato. O seu marido terminava o mandato como presidente do Conselho Regional de Contabilidade (CRC-GO) quando ela foi convidada a compor uma chapa como conselheira da entidade. Houve disputa política e o grupo que Sucena apoiava, liderado por Rangel Francisco, acabou vitorioso .
Começava ali uma trajetória de sucesso no Conselho. Com a vitória, recebeu o convite para assumir a vice-presidência de ética. Dos oito membros do conselho-diretor, era a única mulher. Com a pandemia, muitos membros da diretoria preferiram focar as ações nas próprias empresas. Surgiu aí uma grande oportunidade para Sucena. “Falei com o Rangel e me coloquei à disposição para me tornar presidente”, lembra. Foi um ano de preparação, até que, em 2022, assumiu o cargo após decisão do plenário do Conselho no ano anterior. Momento histórico, já que se tornou a segunda mulher a ocupar a presidência em 76 anos de existência do CRC-GO.
A reeleição, com 84,69% dos votos (maior índice de aprovação entre os CRCs do Brasil), ocorreu em 2023, após consenso para que não houvesse oposição na disputa. A situação não ocorria na entidade há 22 anos. A história se repetiu nas eleições do órgão deliberativo deste ano. Mas, desta vez, em 31 de dezembro, Sucena encerra o ciclo de quatro anos à frente da entidade. Um período de conquistas e promessas cumpridas para a categoria.
Um Conselho para todos
O lema de campanha de Sucena há quatro anos pautou os dois mandatos da presidente do CRC-GO. “Fizemos um trabalho de proximidade, de acolhimento, de ajudar o contador a resolver os problemas dele. Sentíamos a necessidade de estar mais próximos”, avalia.
Sucena entende que conseguiu fazer a entidade ser mais aberta aos profissionais que, segundo ela, passaram a entender que o Conselho é a “casa” deles. “Qualquer contador do Estado pode ter acesso a mim. Estou em 112 grupos de WhatsApp feitos pelos nossos profissionais para receber as demandas da categoria”, conta.
Mesmo sendo apenas a segunda mulher à frente do CRC-GO em mais de 70 anos de história, Sucena garante que a gestão sempre se pautou pelo atendimento igualitário a profissionais homens e mulheres. “Defendemos a contratação pela confiança e pelo resultado do trabalho, independentemente do sexo. Nossa luta é para que todos tenham registro ativo junto à entidade”, explica. Segundo ela, as mulheres representam 37,56% dos registros ativos da categoria em Goiás.
A presidente afirma que, diferente de outras áreas profissionais, na contabilidade não há discrepância salarial entre homens e mulheres e ainda há uma maior flexibilidade para se conciliar a profissão com a função de mãe e os afazeres domésticos. “Há muitos serviços que são home office ou terceirizados em que é bem mais viável unir as responsabilidades do trabalho com a da criação dos filhos”, acredita.
Mesmo assim, Sucena diz que ações voltadas especificamente para as contadoras têm sido feitas na gestão. “Fazemos eventos específicos a elas em que trabalhamos muito a ideia de assumir cargos de liderança. Eu digo: se cheguei até aqui, vocês também podem. É uma forma de incentivá-las a alcançar voos mais altos na carreira”, explica. Sucena entende que é preciso trabalhar melhor a participação política feminina, seja classista ou partidária.
Outra preocupação da presidente do CRC-GO foi se aproximar do poder público e garantir maior participação da entidade em políticas públicas institucionais. “Precisamos assumir o papel de protagonistas. É rentável para a categoria e importante para a sociedade”, acredita.
Ela destaca a relevância dos contadores para atender os desafios do mercado e das empresas no cumprimento de legislações. “Conseguimos oferecer o apoio técnico a um leque enorme de opções: eleitoral, agrário, empresarial, serviço público”. Ela afirma que a profissão tem se tornado cada vez mais importante para a economia do País. “Um exemplo disso foi a discussão da Reforma Tributária, em que há uma demanda crescente de procura à categoria para o apoio técnico”, explica.




Carreira político-partidária?
Foi justamente em uma discussão técnica sobre os impactos da Reforma Tributária do Governo Federal que Sucena Hummel se aproximou do senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO). “Nos reunimos com ele, levamos um estudo sobre o assunto. Depois, começamos a conversar sobre alguns aspectos tributários de impacto para o País”, recorda.
No último dia de filiação partidária para as eleições municipais de 2024, a surpresa: o senador ligou para Sucena solicitando a ida dela para o PSD. A ideia era que a presidente do CRC-GO participasse do plano de governo de Vanderlan na disputa à Prefeitura de Goiânia. Meses depois, surgiu outro convite. Dessa vez, para que integrasse a chapa sendo a candidata à vice-prefeita. “Achei que seria uma grande oportunidade de falar da contabilidade e conhecer o mundo da política. Mesmo não sendo vitoriosa nas urnas, conheci melhor Goiânia, saí um pouco da bolha que vivo e entendi mais a real necessidade das pessoas”, afirma.
Sucena se tornou a presidente do PSD Mulher na capital e, caso haja as condições necessárias, afirma que está pronta para o futuro. “Se acrescentar algo para mim, e minha família e categoria me apoiarem, estou preparada para entrar de vez na política”, admite.
Empresas e família
Se o futuro na política partidária ainda é incerto, o fim do mandato de presidente do CRC-GO irá significar o retorno da dedicação aos negócios. Primeiro a Goiascert, empresa de certificação digital que fundou em 2016 e que atende clientes de todo o Brasil. Além disso, é sócia do marido na empresa de contabilidade Ecp Apoio Empresarial.
Outra meta é aumentar o tempo com a família. “Deixei de ir em festas familiares por causa de compromissos profissionais. Eles precisaram entender que, durante esses quatro anos, a prioridade foi me dedicar ao Conselho”, explica.
O esposo foi o suporte que ela precisava neste período, a auxiliando tanto em questões familiares quanto profissionais. “Se precisar, ele dirige pra mim, me traz comida, me aconselha”, afirma. Os 42 anos de experiência na contabilidade oferecem a Edson outra visão sobre os fatos. “Ele grava as minhas entrevistas na TV e no rádio, posta nas redes sociais e me corrige se precisar. É meu fã!”, brinca.



Uma outra paixão que Edson trouxe para a vida de Sucena foram Rodolfo, 8 anos, e Carolina, 5 anos. “São netos do meu marido, mas também são meus netinhos do coração, me chamam de vovó. Buscamos os dois uma vez por mês para passarem o final de semana lá em casa”, conta.
As duas filhas, Maria Eduarda (médica) e Ana Clara (bacharel em Direito) são paixões ,digamos, bem mais antigas. Vieram quando Sucena ainda era adolescente. “Fui mãe solo aos 16 e 18 anos. Isso me incentivou a correr atrás das coisas. Minha família não me deixou parar de estudar. Na época, eu já trabalhava, estudava e cuidava das meninas”, recorda.
Os principais personagens dessa família que tanto incentivou foram os avós Luiz e Maria Cândida (já falecidos). Com a morte do pai, quando ela tinha apenas 11 anos de idade, foi criada por eles em Goiânia. “Eu considerava os dois como meus pais, me apoiaram muito na vida, inclusive na criação das minhas filhas”, emociona-se













