“Vou lançar a minha marca de roupa, Ivana Menezes”
1.200 metros quadrados de loja em três andares, em um dos pontos comerciais mais valorizados de Goiânia, dezenas de manequins vestidos com vestuário feminino de alto padrão, dignos dos melhores endereços da moda do País. Pensativa, Ivana Menezes olha tudo ao redor. Relembra cada fase de sua vida. Sacoleira, dona de pit-dog, estoquista ou, ainda criança, capinando a terra para plantar milho, feijão ou arroz.
Lembra o pai sonhador, seu Amadeu, que empreendia em pouco alqueires arrendados, que ainda inspira Ivana, que nos anos 1970, a filha mais velha, de quatro irmãos, era a primeira a pegar na enxada. Essa vida na lavoura, em Varjão, durou até os 16 anos, quando se casou com o filho do tratorista, de 19 anos, e se mudaram para Goiânia.
“Meu Deus, que cidade maravilhosa. Não conhecia nada. Compramos um pit-dog, na esquina do barracão em que a gente morava. Até hoje está lá, o X-Massa, na Avenida T2 com a 250, no Setor Coimbra, quase em frente a Jacareí”, relembra. Ali, ficaram dois anos e meio. Compraram um segundo pit-dog. Cada um ficava em um.
“Aprendi a fazer sanduíche. Tinha até fila no meu pit-dog. Mas acabei minha escola e resolvi procurar um emprego”, explica Ivana. No Pit-dog, ficava com receio. “Ficava até de madrugada sozinha. Eu e minha filha pequena. Saí e fui trabalhar com moda, na Liberté, uma atacadista do Grupo Ricard Martan que vendia roupa para lojistas do Brasil inteiro.
Vinha gente do Brasil todo para comprar. Nossa, eu cheguei naquele estoque e me apaixonei. Eu tive contato com a linha, com tecido, com as costureiras, com as máquinas. Eu era muito dedicada e aí meu patrão falou assim, ‘eu vou te ensinar a vender, você é muito esperta’. Fiquei somente seis meses no estoque. Logo eu entrei para as vendas, onde estou até hoje.”
Ivana Menezes ficou três anos na Liberté, quando teve o segundo filho. “Mas ele morreu com seis meses. Com isso, minha sogra tinha levado a minha filha para Varjão e não queria mais devolver. ‘Você não tem tempo. Eu vou ficar com ela aqui em Varjão’. Foi um baque, fiquei com medo de perder minha filha. Tinha perdido um filho, não iria perdê-la. Era tudo pela família. Resolvi mudar tudo e trazer ela de volta. Sai da Liberté. Com acerto, comprei um Chevette hatch branco 76 e peguei o resto em roupa em consignado (acertava todo sábado). Virei sacoleira, fui atrás de clientes. Anotava tudo no caderninho. Rodava mais de 50 quilômetros por dia em Goiânia, sem saber dirigir direito, com minha filha do lado, com três aninhos. Até comer, marmita, a gente fazia no Chevette. Preparava à noite e comíamos durante o dia”, dizia ela, brincando: “era um mascate da cidade”.
E foi ampliando a clientela, um indicava outro, e também foi aparecendo novos fornecedores. Logo trocou o Chevette, agora para um sedã azul. “Comecei a vender uma roupa mais fina, uma roupa mais bem acabada. Rodava os quatro cantos da cidade com meu chevettinho. Urias, Balneário, Campinas.
Em 1992, chegou a hora de abrir sua primeira loja. Era 27 de dezembro. Chevette cheio, foi visitar uma cliente no Centro. “Estava atendendo uma cliente. Era só deixar uma calça. Ela pediu uma ajuda para arrumar uma mala. Eu pensei, nossa, eu não posso, minhas roupas estão tudo no carro. Não, rapidinho, vou lá. Voltei o ladrão roubou tudo. Sentei no meio-fio e chorei, tremia. Eu estava grávida do Fernando (sete meses), iria abrir a loja. Eu falei: ‘meu Deus do céu, não tem como que eu vou pagar as roupas para a Angélica?’ Parcelei essa perda em 24 vezes.”
Meses depois o Fernando nasce, mas sobrevive apenas um mês. “Nada foi fácil, mas Deus nunca me deixou desistir. Quando eu enterrei meu último filho, eu falei assim, eu não quero mais ele, eu quero morrer. Mas tinha a Jennifer e a Jaqueline, eu não poderia recuar.” Abri a loja, que completa agora 30 anos. Na sequência, veio a separação – após 19 anos casada.
A abertura da primeira loja foi inusitada. Ivana levou Jennifer ao médico. Na saída, a filha estava com muita fome e pediu um lanche. Entrou na Galeria do Cinema 1, na Rua 18 com a República do Líbano. “Falei, ‘vamos entrar aqui, esse trem chique, será que vai ter uma lanchonete?’ Nunca tinha entrado lá. Tinha uma loja vazia. Ouvi uma voz. Essa loja vai ser sua. Olhei para a minha filha e perguntei o que ela disse. Ela não disse nada. Eu ouvia uma voz. ‘Essa loja vai ser sua, filha’. Senti que era a voz de Deus. Era sua presença na minha vida. Eu não tinha a mínima condição de abrir a loja ali, o ponto mais caro de Goiânia. Fui na administração e perguntei. Já estava alugada. Eu sempre fui assim, de arriscar. Mas passaram 15 dias, me ligaram, dizendo que a loja estava livre. Não tinha dinheiro. Mas ele insistiu e fui lá. Ele tirou a luva, não entendi, e a loja tinha arara e tinha um balcão. Sabe quando era para ser sua, foi isso. Fiz as contas e resolvi entrar, com toda mercadoria em consignação (ganhava 10% de comissão) e ainda pagando aquela dívida da roupa roubada. Eu liguei pra Angélica, que me fornecedora de produtos, ela buscava nos Estados Unidos. Liguei e falei: ‘Eu não tenho uma peça de roupa, você enche a loja de roupa para mim?’ Ela falou: “Pode fechar que eu encho.” Era um produto diferente demais, ninguém tinha em Goiânia. A sacoleira do chevettinho agora estava no ponto mais valorizado da moda em Goiânia. Foi Deus que me colocou lá. Fiz meu nome dentro da galeria.”
“A elite política e empresarial vivia na loja, que virou point. Primeiras-damas e amigas, por exemplo, ficavam a tarde inteira dentro da loja conversando. Isso era comum. Elas gostavam do meu jeito simples e ousado. Nossa, foram várias pessoas maravilhosas que entraram e entram ainda na minha vida. E criei grandes amizades, minhas amizades, muitas nasceram dentro da loja. Eu sou de fácil conexão e eu gosto de receber, eu gosto de fazer um cafezinho, eu gosto de preparar um chá, fazer daquele momento uma experiência.”
Como é ser Ivana Menezes hoje?
“Nossa, eu até choro. Eu falo assim, gente, era uma história sem… (se emociona). Leandro, às vezes eu entro dentro da minha loja hoje, que é linda, 1.200 metros e três andares e penso, Jesus, o Senhor me deu esse lugar. Eu arrepio. Por isso, eu tenho uma meta de vida e uma missão. Como eu passei e superei, e não foi fácil, tinha dia que não tinha o que comer em casa, minha meta de vida é poder compartilhar esse conhecimento que a vida me ensinou, ajudar encorajando essas pessoas, porque eu fui muito encorajada por amigos, por pessoas próximas, pelos meus chefes que passaram por mim. Hoje eu sou presidente da Câmara da Moda da Associação Comercial (Acieg). Está se materializando tudo o que eu quis, porque eu quero poder contribuir e tentar melhorar essa cadeia produtiva, melhorar a vida dessas pessoas que fabricam, melhorar a qualidade do produto que é feito no nosso Estado, porque o nosso Estado já foi, há 35 anos, referência de moda de marca. Precisamos voltar a qualificar nossa moda.”
Qual o sonho da empresária Ivana?
Criar minha própria marca. A marca Ivana Menezes.
Quando?
Ano que vem.
“Eu nunca desisti, sempre acreditei que era possível fazer diferente e ser alguém. Eu não imaginei ser. Eu não imaginei o que tenho hoje. Eu imaginei ser alguém. Quando o ladrão me roubou tudo, eu falei, não eu vou voltar a ser vendedora. Eu não vou desistir”
“A sacoleira do chevettinho agora estava no ponto mais valorizado da moda em Goiânia. Foi Deus que me colocou lá. Fiz meu nome dentro da galeria”