Na última semana, um dos mais importantes juristas e filósofos do Brasil, Lênio Streck, escreveu um artigo ao jornal O Estado de S. Paulo, cujo título foi “Permitimos que os robôs decidam nossos direitos”.
A inteligência e lucidez de Lênio dispensam comentários. Ele tem sido uma esperança às discussões rasas e ignorantes que nós temos tido, em regra, a quase tudo no Brasil. A verdade é que Lênio tem trazido muita luz em meio à escuridão da burrice coletiva brasileira.
Embora o título do artigo do filósofo tenha relação com a IA, a crítica dele é muito mais dirigida à falta de IH. Sim. À falta de IH.
Já adianto aos menos avisados: IA é inteligência artificial. IH é inteligência humana.
De fato, enquanto muitos têm discutido a qualidade dos aspectos éticos e pragmáticos das IA(s) nas decisões judiciais e nas decisões empresariais, a verdadeira discussão não é exatamente sobre a IA. A maioria das IA(s) é excelente.
Na minha percepção, a discussão é anterior. Precisamos entender por que a IH anda tão baixa no mundo jurídico e no mundo empresarial; por que a qualidade cognitiva despencou tanto.
Precisamos entender por que a filosofia utilitarista invadiu o Direito e o mundo empresarial e gerou a terceirização do ato cognitivo de decidir. Na verdade, gerou a exclusão do ato cognitivo de decidir. Magistrados e empresários têm terceirizado o ato de tomar decisões. Isso é muito grave. Isso é gravíssimo.
No mundo jurídico, a ideia “decidir primeiro, com base em dados, e fundamentar depois” é uma excrescência comportamental. No mundo empresarial, a algoritimização do negócio é um atestado de inabilidade e de incompetência em relação a uma ferramenta humana insubstituível: o feeling.
Nós nos tornamos analistas piores, porque nosso olhar sobre o mundo piorou. Ficamos mais ignorantes. Basta conversar dois minutos com líderes mais experientes “do passado” para perceber a discrepância cognitiva geracional.
A verdade é que o silogismo aristotélico acabou. A verdade é a cognição humana está comprometida.
Em resumo: ficamos mais burros e preguiçosos, por isso terceiramos decisões importantes.
Ratifico: a IA é uma excelente ferramenta. Ninguém discute isso. Aliás, discutir isso já é falta de IH. Ocorre que o uso da IA exige preparação intelectual e ética, que tem sido incompatível com a péssima formação intelectual brasileira. Somos muito fracos e rasos para lidar com algoritmos.
A verdade é que o mundo contemporâneo disponibilizou “Ferraris” (ou melhor “Mercedes”) a serviço de baixa cognição humana.
Para terminar, eu celebro minha estupidez e concordo com Lênio.
Proponho: paremos de terceirizar nossas decisões. IA é apenas ferramenta.

Carlos André Pereira Nunes,
Linguista, professor, advogado público, especialista em redação de atos normativos, conselheiro da OAB, diretor da ACIEG e fundador do Instituto Carlos André.














