Por Rafael Vaz
A operação ocorre em umA venda da operação da Motiva (ex-CCR) para o grupo mexicano Grupo Aeroportuario del Sureste (Asur), controlador do Aeropuerto de Cancún, marca uma mudança significativa no cenário da aviação civil brasileira. Avaliada em R$ 11,5 bilhões, a transação inclui a compra das participações acionárias (R$ 5 bilhões) e a assunção de dívidas líquidas (R$ 6,5 bilhões), colocando o Aeroporto Internacional Santa Genoveva, em Goiânia, no centro das atenções.
A operação ocorre em um momento em que o terminal goiano registra crescimento expressivo na movimentação de passageiros. Somente em julho de 2025, mês de férias escolares, 373.905 pessoas passaram pelo aeroporto, o maior número da história desde a sua fundação, em 1955. O volume representa alta de 12% em relação ao mesmo mês de 2024, com mais desembarques (188.170) do que embarques (185.735).
Além das conexões consolidadas com Guarulhos, Congonhas, Viracopos, Galeão, Brasília, Confins, Recife e Palmas, julho também trouxe rotas sazonais para Salvador e João Pessoa. A aviação executiva segue aquecida: Goiânia foi o quarto terminal mais movimentado do País em pousos e decolagens de jatinhos e turboélices (2.505 operações), atrás apenas de Pampulha (BH), Jundiaí (SP) e Campo de Marte (SP).
Da concessão ao novo controlador
O Santa Genoveva integra o Bloco Central da 6ª Rodada de Concessões de Aeroportos, cujo leilão ocorreu em abril de 2021, com assinatura do contrato em outubro daquele ano. O consórcio vencedor foi a então CCR, que assumiu seis aeroportos por 30 anos, com R$ 1,8 bilhão de investimentos assegurados.
Na época, a contribuição inicial da CCR foi de R$ 754 milhões, com impressionante ágio de 9.156% sobre o lance mínimo inicial (R$ 8,14 milhões). Agora, com a venda das operações para a Asur, o setor passa por uma nova reorganização, cuja efetivação está prevista para 2026. Até lá, os aeroportos seguem sob a gestão da Motiva.
Mudanças de cultura e gestão
Para Alessandro Máximo, profissional com mais de 32 anos de experiência em operações aeroportuárias, a chegada da Asur tende a alterar práticas internas ao longo dos próximos anos. “Goiânia tem bons indicadores de eficiência operacional, mas a cultura do grupo novo pode modificar práticas e impactar a gestão a médio prazo”, avalia.
Segundo ele, o maior gargalo para Goiânia é encontrar um posicionamento estratégico próprio, distinto do hub nacional de Brasília. “O desafio é transformar Goiânia em um ponto de concentração de voos regionais. Um hub regional seria um caminho interessante. Não faz sentido competir com Brasília, Goiânia precisa de uma vocação própria”, explica.

Aviação executiva: potencial existe, mas falta prioridade
Embora a aviação comercial seja o foco atual do terminal, Alessandro aponta que a aviação executiva perdeu atenção nos últimos anos. “Outros aeródromos têm se posicionado melhor nesse segmento. Mas isso não representa risco à segurança operacional em Goiânia, uma vez que temos tradição e infraestrutura para avançar. O problema é de prioridade, não de capacidade”, pontua.
O especialista destaca a necessidade de um plano aeroviário estadual atualizado, articulado com o plano aeroviário nacional. “A aviação precisa trabalhar de forma coordenada. É essencial integrar aeródromos como Rio Verde, Caldas Novas e outras cidades do interior. Um hub regional só se viabiliza com rede”, ressalta.
Para aproveitar o potencial logístico do aeroporto, Alessandro defende uma atuação conjunta entre governos e iniciativa privada. “A integração entre Governo Federal, Governo de Goiás, iniciativa privada e aeroportos regionais é o caminho mais coerente. Isoladamente, nenhum desses elementos resolve”, diz.
Apesar de mudanças estruturais relevantes, o especialista acredita que o maior impacto virá das pessoas. “O diferencial está no investimento em executivos que façam a diferença, com inovação e ousadia. Já houve movimentos assim no passado. Se isso retornar, pode reposicionar o aeroporto em outro patamar”, conclui.
Quem é a Asur
Fundado em 1996, o Grupo Aeroportuario del Sureste (Asur) nasceu da reorganização do sistema aeroportuário mexicano após a onda de privatizações. Em 2000, tornou-se o primeiro grupo aeroportuário do mundo a ter capital negociado simultaneamente nas bolsas de Nova York e Cidade do México.
A companhia opera atualmente 16 aeroportos no México, Colômbia e Porto Rico, incluindo o seu ativo mais conhecido: o Aeroporto Internacional de Cancún, um dos mais movimentados das Américas.

Com a compra da Motiva (ex-CCR), a Asur passa a administrar 36 aeroportos em sete países, entrando definitivamente no ambiente regulatório brasileiro — considerado um dos mais complexos da aviação global.
Aeroportos adquiridos da Motiva (Brasil + Caribe + América Latina)
Confins (MG)
Pampulha (MG)
Afonso Pena (PR)
Bacacheri (PR)
Cataratas (PR)
Londrina (PR)
Joinville (SC)
Navegantes (SC)
Bagé (RS)
Pelotas (RS)
Uruguaiana (RS)
Goiânia (GO)
São Luís (MA)
Imperatriz (MA)
Palmas (TO)
Petrolina (PE)
Teresina (PI)
Curaçao
Costa Rica
Quito (Equador)
Aeroportos que a Asur já administrava
Cancún, Cozumel, Huatulco, Mérida, Minatitlán, Oaxaca, Tapachula, Veracruz, Villahermosa (México)
San Juan (Porto Rico) Carepa, Corozal, Medellín, Montería, Quibdó, Rionegro (Colômbia)














