Por Leandro Resende
O que você sabe dos mundos e impérios mongol, russo, Qing ou da Restauração Meiji? As duas três últimas décadas de baixo crescimento, variando entre pífio e modesto, no Ocidente, principalmente das potências EUA e países europeus, deram margem para o avanço das novas lideranças globais – que influenciam diretamente e cada vez mais o consumo e o comportamento das economias, governos, famílias e empresas em todo o mundo. E elas não são ocidentais..
O Oriente emergiu. Cidades e países deste “novo mundo” brilham os olhos e a audiência global. É uma ruptura com a história que conhecemos – e abre espaço para vasculharmos mais esse misterioso universo escondido.
Em boa parte dos séculos até chegar ao 20, o domínio foi ocidental. Contudo, o século 21 abriu alas para o Oriente se consolidar neste ambiente globalizado. Mais do que isso, cedeu espaço para uma hegemonia inédita em várias frentes: consumo, produção, tecnologia, cultura, entre outras.
Na escola, foram escassas as linhas de estudo sobre a cultura oriental. Quando muito, eram apresentadas para sustentar as vitórias dos impérios romano, grego, napoleônico, a expansão marítima de Portugal, Espanha, França e dos britânicos, que da grande fazenda norte-americana fez nascer os Estados Unidos, também ocidental, que se tornou o novo grande império.
Persas e bizantinos foram matérias secundárias – entregues sem a mesma empolgação dos ocidentais. A Índia aparece quando os portugueses “erraram” o caminho e vieram para cá “descobrir” o Brasil. China, lembra, o auge é quando falavam da pizza, que os italianos “levaram” a fama internacional.
O que você sabe dos mundos e impérios mongol, russo ou Qing? O que mais conhece: Napoleão ou Gengis Khan? Gandhi você viu mais em filmes americanos ou europeus do que em livros. Mao Tsé-Tung, o que te apresentaram dele? Czares, sheiks e imperadores orientais passaram batido em nossa formação.
Essa, então periferia da história, caminha forte para o centro e deve dominar várias frentes do que se apresenta como a nova divisão global do poder. Da economia ao marketing, da tecnologia à cultura. Abrimos um link para refletir sobre o passado, presente e futuro desta disputa de espaço do poder mundial. Boa leitura!
O futuro mudou de fuso e as marcas precisam acompanhar (Ciro Ribeiro Rocha, fundador da Enredo Brand Innovation)

O mundo está vivendo um deslocamento silencioso, mas profundo: o eixo do futuro mudou de direção.
Enquanto o Ocidente tenta explicar, justificar e debater o que vem pela frente, o Oriente está simplesmente executando.
Nos últimos meses, tive a oportunidade de participar e palestrar em dois dos maiores encontros de criatividade e estratégia da Eurásia: o AdAsia, em Pequim, e o Red Apple Festival, em Moscou. Voltei com uma certeza: marcas que ainda pensam com o relógio do Ocidente vão perder relevância mais rápido do que imaginam.
Na China, inovação não é um departamento. Se tornou infraestrutura do País. Inteligência artificial, dados, varejo, mobilidade, conteúdo e pagamentos funcionam como um só organismo vivo. Ali, marca é consequência de sistema: é construída no detalhe, na eficiência, na disciplina e na capacidade de escalar.
E, nesse contexto, quando falamos sobre branding a pergunta deixa de ser “qual é a sua história?”, e passa a ser “como a sua marca melhora a vida das pessoas em cada interação?”.
É simplesmente outra lógica.
Já em Moscou, percebi algo completamente diferente: criatividade não é uma questão de identidade. O Japão elevou o design ao status de filosofia.
A Coreia transformou estética em indústria. E a Rússia usa cultura como forma de resistência quando o mundo fechou as portas para ela. O País, literalmente, reinventou o seu mercado interno em 3 anos, criando os seus próprios Google, Uber, Meta, Spotify, YouTube e Amazon, dentre outras.
O que une essas duas experiências – Pequim e Moscou – é algo que as empresas brasileiras precisam levar a sério:
o futuro será de quem consegue unir sistema e significado, tecnologia e alma, dados e narrativa.
Não existe marca forte sem método.Não existe marca desejada sem coragem.
A boa notícia?
O Brasil vive justamente nesse espaço entre ordem e improviso. Somos criativos, adaptáveis e intuitivos. Temos uma sensibilidade rara para entender pessoas, mas ainda precisamos transformar essa potência em sistema. Essa é a nossa grande virada.
Marcas que desejam continuar relevantes nos próximos anos precisam fazer três movimentos urgentes:
1. Construir visão de longo prazo.
2. Integrar inteligência artificial com estratégia humana: IA sozinha é produção. IA com visão é poder.
3. Definir um ponto de vista claro: Quem tenta agradar o mundo perde a capacidade de influenciá-lo.
Tenho uma certeza:
O futuro não está mais no Vale do Silício.
Não está em Nova York ou Londres.
O futuro acontece em fusos que não combinam com o relógio brasileiro, mas combinam perfeitamente com a nossa capacidade de aprender rápido, improvisar com inteligência e criar pontes entre mundos.
O futuro mudou de fuso.
E as marcas que entenderem isso agora vão liderar o que vem na próxima década.
O sol agora nasce mais cedo: O novo Oriente (Dênerson Rosa, advogado, fundador da Sociedade de Advogados Dênerson Rosa, mais de 20 anos de atuação em Direito Tributário e Empresarial)

Durante décadas, o mundo corporativo funcionou com uma divisão clara e confortável: o Ocidente criava, detinha as grandes marcas e ficava com a maior parte do lucro, enquanto o Oriente fornecia a mão de obra e a fábrica. Essa lógica, no entanto, ficou no passado. Ao olharmos para o cenário econômico atual, é preciso reconhecer que o centro de gravidade do planeta não apenas se moveu, ele se consolidou em novos fusos horários. O Oriente deixou de ser apenas a “chaminé do mundo” para se tornar o seu laboratório, o seu financiador e, fundamentalmente, o seu mercado consumidor mais sofisticado.
Essa transição não é um movimento discreto, mas uma mudança estrutural nas cadeias globais. O exemplo mais claro dessa nova liderança está na indústria automobilística. Historicamente dominado pelos Estados Unidos e pela Europa, o setor hoje é pautado pela velocidade e pela competência tecnológica das montadoras asiáticas.
A ascensão dos veículos elétricos não deve ser vista apenas como uma troca de combustível, mas como a prova real de que a ponta da inovação mudou de endereço. Enquanto o Ocidente ainda debatia regras e protecionismos, a China tratou a eletrificação como infraestrutura estratégica. O resultado é que, hoje, a tecnologia de baterias, a integração de software e a eficiência produtiva que definem o jogo global são orientais.
Nesse contexto, é importante notar que a inovação tecnológica vem acompanhada de algo ainda mais profundo: o deslocamento da renda. O crescimento acelerado da classe média na Ásia redefiniu o perfil do consumidor global. Não estamos mais falando de mercados que apenas compram produtos ocidentais; estamos diante de sociedades que criam tendências. A sofisticação dos pagamentos digitais, o dinamismo do varejo online e a integração de serviços em “super apps” no Oriente estão muito à frente das soluções ocidentais. O mundo hoje consome como o Oriente, e as empresas que ignoram essa mudança, apegando-se a modelos de gestão antigos, correm o sério risco de ficarem para trás.
Para o empresário brasileiro, essa leitura é vital. O Brasil, com sua força no agronegócio e posição estratégica, não pode se dar ao luxo de olhar para a Ásia apenas como um destino de exportação. É necessário compreender que a “alma” do negócio, incluindo design, estratégia e inovação, agora também vêm de lá. A relevância no século 21 depende da capacidade de dialogar com essa nova potência de forma inteligente e estratégica..
Além disso, a própria visão de planejamento e previsibilidade ganha novos contornos quando observamos a disciplina das economias orientais. Enquanto o Ocidente, muitas vezes, trava em ciclos políticos curtos e polarizações, o Oriente executa planos de longo prazo com uma eficácia que desafia nossa capacidade de reação.
Em resumo, o mundo tornou-se oriental não por força bruta, mas por mérito de execução e escala. A tecnologia dos carros elétricos é apenas a ponta do iceberg de uma transformação que abrange renda, consumo e influência política. Cabe ao mercado brasileiro e às suas lideranças a clareza de ajustar a rota. O vento mudou de direção, e insistir em mapas antigos não nos levará a lugar algum. O futuro já chegou, e ele exige uma nova mentalidade.
A reconfiguração do poder tecnológico global (Leonardo Alves, professor na UFG, doutor em Ciência da Computação, especialista em Engenharia de Software, Desenvolvimento de jogos e simuladores. Diretor da fábrica de software da UFG)

Por muito tempo, acreditou-se que o domínio tecnológico do Ocidente era um dado permanente da história. O Vale do Silício simbolizava inovação. A Europa representava regulação e o resto do mundo consumia um padrão tecnológico desenhado por americanos e europeus.
Mas essa percepção tornou-se anacrônica. Nos últimos anos, o Oriente assumiu uma velocidade de transformação que não apenas o aproxima, como já o coloca à frente das grandes potências ocidentais em áreas estratégicas como inteligência artificial, infraestrutura digital e a cadeia de minerais críticos.
A ascensão asiática não é episódica, é estrutural. A combinação entre planejamento estatal de longo prazo, capacidade industrial gigantesca e controle de insumos essenciais colocou países como China, Coreia do Sul, Japão e Índia em uma posição inédita.
O Ocidente ainda cria conceitos, mas o Oriente fabrica, escala, distribui, compra empresas, financia startups e domina a base material da inovação. Em tecnologia, quem controla o hardware, os minerais e os dados tem o poder de determinar o rumo da história – e o centro gravitacional desse tripé já não está em Washington ou Berlim, mas em Xangai, Shenzhen, Seul, Bangalore ou Tóquio.
Esse movimento altera o equilíbrio de poder global. A produção de semicondutores, a extração e o refino de terras raras, a hegemonia na indústria de baterias e a consolidação de ecossistemas próprios de IA simbolizam um novo tipo de força: mais silenciosa, menos ideológica e profundamente eficaz. Enquanto o Ocidente se perde em disputas regulatórias e na desindustrialização, o Oriente avança com pragmatismo e escala.
A questão agora é de futuro: o que significa para o mundo viver sob uma hegemonia tecnológica oriental nas próximas duas ou três décadas?
A resposta não é simples. É possível que vejamos padrões de governança digital, modelos de cidade inteligente e sistemas de vigilância inspirados em arquiteturas asiáticas se tornando referências globais.
E não por imposição política, mas por eficiência e custo. A lógica oriental, coletivista, integrada e avessa ao improviso, pode passar a moldar tecnologias adotadas até mesmo por democracias ocidentais. É bom destacar que não é o fim do Ocidente, mas o fim da sua hegemonia. Não é a derrota do Ocidente, mas o fim de sua exclusividade. A Europa e os Estados Unidos ainda concentram pesquisa acadêmica, laboratórios de ponta e criatividade conceitual. Mas já não dominam a manufatura, os insumos e o financiamento necessários para transformar ideias em poder real.
A hegemonia tecnológica do século 21 será multipolar, porém com claro deslocamento para o Leste.
O fato essencial é que essa virada já ocorreu – o mundo apenas ainda não assimilou completamente. A disputa em curso não é sobre “se” o Oriente liderará, mas “quanto” dessa liderança se converterá em influência estrutural, em normas, em padrões e em decisões que regerão o cotidiano global. Não se trata apenas da próxima geração de chips ou algoritmos, mas da forma como sociedades inteiras serão organizadas.
O século 20 foi moldado por Hollywood e Vale do Silício. O século 21, cada vez mais, será desenhado por Shenzhen, Seul e Mumbai. Cabe ao Ocidente decidir se participará desse novo ciclo como protagonista ou como espectador.
Cultura de massa: a ponta do chicote (Leandro Resende é formado em Jornalismo e Economia, graduando em Ciências de Dados, mestre em marketing com viés em comportamento do consumidor e publisher da Leitura Estratégica e do portal STG News)

A virada do domínio oriental sob o poder ocidental começou e se consolidará na economia em mais uma ou duas décadas; avançará progressivamente na tecnologia; e, no fim, assumirá, aos poucos, o domínio inédito da narrativa global.
O Ocidente (Europa e Estados Unidos) escreveu a história do mundo e sempre soube controlar a voz global – contou sua história como se fosse a única. China, Índia, Rússia, Japão, seus vizinhos e o Oriente Médio sempre foram a periferia da história. Controlar a mente global é escrever a história à sua maneira, é dominar os sonhos do mundo, é criar desejos, marcas, produtos e serviços. É construir líderes e criar demônios. Veja a China “comunista de décadas atrás, que comia criancinhas e cachorros”, como foi odiada. Hoje, até quem xingou se derrete em admiração.
Os EUA foram primorosos em indústria cultural, do controle do comportamento à produção de símbolos. Esse ativo vale ouro em qualquer época. Os exemplos são fartos: Hollywood; a Disney; o domínio do cinema e da música mundial. São mecanismos que ditam sonhos, ensinam estilos de vida e determinam o que deve ser consumido. Tudo de uma forma lúdica e invisível.
O Oriente dominar essa história não é impossível, mas é um processo mais lento. Talvez seja o fim de um processo de controle – a ponta do chicote. Se vai dominar o dinheiro, a produção, consumo, vai precisar de dominar a opinião e os desejos. Os bilionários árabes e russos já deram passos no Ocidente. Comprar grandes clubes de futebol do planeta é um passo de interação.
Outros pontos alcançados na audiência do mundo mostram que não existe impossível nessa seara: expansão agressiva e dominante do Tik Tok como rede social e plataforma que molda hábitos e estéticas juvenis, e a crescente influência de narrativas chinesas e indianas, além do avanço global do K-pop, as séries sul-coreanas que conquistam audiências massivas. O movimento é discreto, mas não duvide que eles sabem também fazer a cabeça do Ocidente.
Não falta mercado consumidor no Oriente – dois terços da população vivem lá. Mas o desejo não é só dominar o mercado comprador, mas controlar a opinião do mundo e conquistar o troféu da admiração.
Aliás, controlar opinião é algo que o Oriente gosta muito, pois vivem lá autocracias oficiais e extraoficiais do mundo: China, Rússia e boa parte do mundo árabe rico. Democracia não é o forte desse lado do mundo.
Esse poder é dos mais complexos, pois não se compra com dinheiro. É inteligência. Agir sem criar resistências. Saberá o povo oriental vender sua imagem de universalidade? Terá a capacidade de traduzir valores locais em linguagem global?
Criar outro modelo superior ao hollywoodiano será o desafio. Mas não duvido que quem saltou do camelódromo para o topo da cadeia dos superpredadores capitalistas, sem ser capitalista, vai reinventar o modelo de controle mundial. Começar a repensar o meio ambiente seria uma forma simpática de agradar o mundo. Vamos ver as cenas das próximas décadas.













