Estamos trocando uma oralidade que mescla nosso rural e urbano próprios de cada região do País, herdada de nossos antepassados, por uma outra oralidade, uma linguística de novos tempos, distante e difusa. É um movimento natural de uma sociedade universal, em que todos estão na mesma caixinha, falando sobre os mesmos filmes do streaming, usando as mesmas marcas, tendo as mesmas marcas (na linguagem).
Um venezuelano nativo, de 22 anos, de ascendência indígena, da minoria dos Wayuu (ou Guajiro), que vive entre o Lago de Maracaibo e a fronteira com a Colômbia, fala hoje as mesmas gírias e tem os trejeitos gestuais (e os retransmite) como um sul-coreano jovem, que se diz rebeldemente um danil minjok para se referir à raça pura coreana – termo proibido pela ONU em 2007. Se brincar, fazem as mesmas danças do Tik Tok e compram na Shopee.
Tanto os bolivarianos patriotas (não só venezuelanos), como os nacionalistas étnicos orientais (inclua-se aí japoneses e chineses) são de culturas muito arraigadas – coisa que já vai pra lá de séculos e séculos para ficar assim, exacerbado, curtido no modo povo e nação.
É tipo um algoritmo da vida real rodando do mesmo jeito em um banco de dados isolado ou caixa craniana impura há mil anos – nem sempre de forma homogênea, mas trabalhada no martelo, na foice, na lima, no suor e no sangue.
Isso é civilização. Cada qual com o seu jeito e a sua dose de originalidade – antes que tudo vire um parque da Disney. Mas a linguística e os costumes vão se modificando a cada mistura de civilizações.
Vejamos a nossa maior mistura: em plena segunda-feira de sol a pino, dia 22, mês de abril, cinco séculos atrás, dois indígenas pescavam no Rio Buranhém (esse nome veio com o homem branco depois), e os meninos da aldeia vieram chamá-los (gritando) para uma reunião. Outros parentes tinham avistado, em canoas bem grandes, outra tribo. Pareciam ser indígenas brancos e vestidos. Era algo estranho para todos, quase como extraterrestres.
Ah, só para registro, Buranhém é também o nome de uma árvore que tem a sua origem da língua tupi antiga e significa “pau doce”, por meio da junção dos termos ybyrá (pau) e e’ẽ (doce). Tipo: Ybyráe’ẽ. Só por curiosidade boba, no Google tradutor, em inglês, ybyráe’ẽ é ybyráe’ẽ.
Melhor assim: Mas Ybyráe’ẽ parece o nome de um dos selecionados do time francês para a copa – fazendo tabela com Kylian Mbappé ou Ousmane Dembélé.
Vamos focar no tema inicial. As expressões linguísticas são fragmentos vivos de uma civilização. Mas essa realidade de “conurbanação” de línguas (mesclagem de códigos), em poucas décadas, se alguém disser algumas destas, a seguir, vai estar falando ‘grego’: boi na linha; gato subiu no telhado; elefante em cima da árvore; macacos me mordam; amigo da onça; nem que a vaca tussa; dormiu com as galinhas; barata tonta, entre outras zoológicas.
O repertório compartilhado é um pacto tácito de pertencimento.
Mas como é valioso ouvir alguém dizer algo que acende uma luz na memória afetiva, revisando um passado automaticamente. Cada geração tende a puxar a sardinha para o lado da sua própria, mas imagino que as memórias afetivas e pactos de pertencimentos que estão sendo criados em velocidade turbo para as novas gerações enterram a nossa época – já, em vida, assistimos este velório e, melhor, evoluir sem tristeza, é algo natural. Fecha a conta.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














