Alguns fatos mostram o quanto o Brasil se esforça para ser uma caricatura de País. O rombo do caso Master ainda está sendo calculado, mas já é apontado como o maior da história do Brasil. O que se sabe, de antemão, é que o tapete do país é quilométrico, e o que der para esconder debaixo será escondido.
Ninguém duvida disso – No fim, pode até ser que, em alguns anos, todos estejam ao redor de uma piscina em um resort, talvez no interior do Paraná, quem sabe, rindo daquele (deste) momento tenso que passaram. Alguém, entre os mais espirituosos, vai dizer: “Tudo passa”.
Mas, vamos ao presente. Nesta semana, saíram mais detalhes da máfia comandada pelo banqueiro (apontado pela polícia como chefe de quadrilha) Daniel Vorcaro. Um dos detalhes curiosos é que, como nas máfias tradicionais, Vorcaro e seus milicianos operavam um grupo de WhatsApp chamado a “Turma”, no qual articulavam golpes e maldades, ameaças e crimes.
Contudo, isso não é o problema. Mafioso tem de conversar com mafioso. Mas, pelo mesmo aplicativo de mensagem, captou-se uma conversa suspeita do maior bandido de colarinho branco do País e um membro da cúpula da mais alta corte de Justiça brasileira, o Supremo Tribunal Federal (STF). No caso, o ministro Alexandre de Moraes. Detalhe: Era a véspera dele, Vorcaro, ser preso pela primeira vez.
O rocambolesco dessa parábola torta é que a família do dito membro da mais alta corte da País era, há alguns anos, contratada para fazer a defesa ampla, irrestrita e geral (visto que a mensalidade do gordo contrato de R$ 3,6 milhões era para toda e qualquer ação) do mafioso citado. Torta porque ainda não se consegue enxergar ensinamento de lições espirituais e/ou éticas profundas neste caso específico para dizer que é uma parábola tradicional.
Sendo assim, seguindo o Protocolo Brasil, a próxima normalização em curso será a de que: é natural que o maior criminoso financeiro do País, quando solto, acessava on-line, para prosear, o topo da cadeia da Justiça do País. Totalmente normal, mesmo que esse mesmo sujeito já tivesse acusado, encrencado, enlameado, enroscado e tombando.
O “bicho” não só mandava mensagem, porque qualquer um de nós pode mandar, basta ter o número, mas, o que o elevava ao panteão dos lascados, era receber, como recebeu, respostas secretas (aquela de visualização única) do ministro.
Um sonho de verão para qualquer suspeito, processado, réu ou criminoso brasileiro. Se vier a normalizar, será preciso democratizar, e, assim, todos os ministros da tal corte deverão deixar acessíveis os seus números de celular no site do Supremo. Vai ser o SAC do bandido. Ou, melhor, Serviço de Atendimento ao Criminoso (SAC) do STF.
Se fosse possível encomendar a William Shakespeare que reescrevesse esta história, já que era o melhor adaptador de enredos de toda literatura universal, em algum momento da narrativa, este escritor perspicaz, imagino, quando chegasse neste ponto do grupo, a “Turma”, a elevaria, em algum momento1, à “3ª Turma do STF” – que, tradicionalmente, tem duas turmas. Será que seria o novo “Macbeth” deste século do Bardo do Avon? uma trama de poder, ambição, culpa e destino.
Não duvido que o autor de Hamlet, Romeu e Julieta, Rei Lear, Otelo, e outros iria dar essa pincelada dramática. Para escrever essa nossa tragédia, só aceito Shakespeare.
É preciso uma reflexão profunda sobre o papel do Judiciário e da advocacia no Brasil, esta por ter regras de contratos e transparência bastante diferenciadas (e privilegiadas em relação a todos os setores da economia), entre outros pontos a serem debatidos.
Mas ambos estão tranquilos, pois sabem que a reformulação seria um papel do Legislativo e do Executivo – que é uma banda que apodrece a séculos no País. Fede, mas não se incomoda. Aliás, as suas crias e afilhados recebem os seus títulos ou mandatos – e, a estes, quanto menos a Justiça ou a advocacia funcionar ante os seus, melhor.
E foi assim, sempre, que se construiu esse gigante tapete no Brasil. Onde tudo cabe embaixo. E, falsos, mas sorridentes, todos citados vão de mãos dadas empurrando parte de toda sujeira, e todos que é possível salvar, para um dos cantos do tapete.
Leandro Resende,
editor-chefe da Leitura Estratégica.














