Por Rafael Mesquita
O final de semana que recolocou Goiás como a capital mundial da motovelocidade, com a realização da MotoGP, ainda está na mente dos goianos, e já se fala sobre a possibilidade de trazer à capital do Estado outra importante categoria do esporte a motor no mundo: a Fórmula Indy.
O Governo de Goiás tem negociações em andamento com a Penske Entertainment Corporation, detentora dos direitos da categoria, e pode anunciar nos próximos dias um possível avanço nas conversas. O governador Daniel Vilela confirmou a negociação. “Estamos conversando e trocando informações. Eles (Penske) solicitaram informações técnicas do autódromo.Nos próximos dias, podemos ter avanço nessa negociação. A ideia é ter uma etapa no ano que vem, se der certo”, disse.
O advogado e idealizador do retorno da MotoGP a Goiânia, Walmir Cunha, explica que, para a concretização do projeto, é preciso analisar três aspectos: viabilidade técnica, operacional e financeira. De acordo com ele, a primeira é que, ao contrário da Fórmula 1, a Fórmula Indy não é regulamentada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), mas sim pela IndyCar, sendo necessária a avaliação da entidade.
O segundo ponto está relacionado ao fato de a promotora do possível evento em Goiânia ter condições de realizar a corrida dentro do regulamento e exigência da IndyCar. “Se houve na MotoGP, não tenho dúvidas que haverá também na Indy”, acredita Walmir Cunha.

O terceiro aspecto envolve o retorno financeiro. “A Indy é uma categoria muito disputada mundialmente, tem grandes impactos e daria retorno financeiro para quem quer desenvolver o evento”, avalia o advogado. Mas ele ressalta: “Não há que se comparar o impacto financeiro dela com o da MotoGP, que tem um apelo mundial muito maior”, destaca. Walmir explica que a Indy é uma categoria mais expressiva nos Estados Unidos. “Por isso, acredito que a procura por ingressos seria menor, com valores mais acessíveis. Porém, é inegável que também trará impactos econômicos”, defende.
Indy x MotoGP
O presidente do Sindicato de Turismo e Hospitalidade no Estado de Goiás (Sindtur-GO), Ricardo Rodrigues, cita um levantamento feito pela Fundação Getúlio Vargas que demonstra o sucesso econômico da MotoGP para Goiânia. “A realização do Grande Prêmio do Brasil de Motovelocidade representou um marco para o turismo em Goiás, com impacto econômico total de R$ 1,14 bilhão, superando as projeções iniciais. O evento atraiu cerca de 148 mil pessoas, sendo aproximadamente 70% de fora de Goiânia, o que evidencia sua forte capacidade de atração turística”, avalia.
Ele argumenta que ainda houve ocupação total da rede hoteleira, geração de mais de dez mil empregos diretos e indiretos e arrecadação de R$ 173 milhões em tributos. “Os segmentos mais beneficiados foram hotelaria, alimentação, transporte, comércio e serviços ligados ao turismo receptivo, consolidando um impacto positivo em toda a cadeia turística”, explica.
Ricardo Rodrigues acredita que a possibilidade de receber a Fórmula Indy em Goiânia é bastante promissora, especialmente após o sucesso da MotoGP, que validou a infraestrutura e a capacidade da cidade em sediar eventos de grande porte. Mas concorda de que é preciso entender que o impacto será diferente. “A IndyCar possui maior concentração de público nos Estados Unidos e menor alcance global em comparação à MotoGP, o que pode resultar em um fluxo internacional mais limitado”, afirma.

Ainda assim, compreende que, caso haja a confirmação da realização de uma etapa da categoria na cidade, Goiânia dará um passo importante para se consolidar como um polo de grandes eventos no Brasil. “A continuidade da MotoGP até 2030, aliada à possibilidade de novos eventos como a Indy, fortalece o posicionamento da cidade no cenário nacional”, acredita. Mesmo assim, ressalta: “Para se tornar uma referência consolidada, é fundamental manter uma agenda contínua, diversificar os tipos de eventos e investir em promoção turística estratégica. Goiânia tem todos os elementos para estar entre os principais destinos de turismo de eventos do País”.
Indy em Goiânia: o que falta?
A MotoGP em Goiânia trouxe à tona problemas na pista do Autódromo Internacional Ayrton Senna. No sábado, 21 de março, um buraco surgiu na reta principal às vésperas do início da classificação da Moto3. O problema ocorreu porque o cano de drenagem da Saneago arrebentou, e a água levou a terra para baixo, fazendo com que o asfalto cedesse no local. Com isso, houve atraso de 80 minutos para o início da corrida sprint da MotoGP.
No ddomingo, 22, mais um contratempo: a corrida da classe principal foi reduzida em oito voltas por conta das condições do asfalto entre as curvas 10 e 12. O anúncio foi feito com menos de cinco minutos para o início da volta de apresentação, reduzindo a prova de 31 para 23 voltas. Após o fim da corrida, os pilotos relataram que o asfalto, que se soltava no trecho final da pista, voava em direção a eles, com algumas pedras causando impactos e deixando ferimentos leves.
Walmir Cunha avalia que os problemas não deveriam ter acontecido e precisam ser corrigidos para que outras categorias internacionais possam vir para Goiânia. Mesmo assim, destaca que não é algo tão grave como foi alardeado por alguns, sendo de simples resolução pela administração do autódromo.
Já o comentarista de Fórmula Indy pela ESPN e chefe de um dos principais sites especializados em esporte à motor no Brasil (grandepremio.com), Victor Martins, disse, em entrevista à Leitura Estratégica, que representantes da categoria no Brasil já visitaram o autódromo de Goiânia para avaliar a situação. “Mas depois dos problemas ocorridos na MotoGP, houve uma preocupação muito grande por parte deles”, afirma.

Ele ainda destaca outro possível item que pode dificultar o retorno da Fórmula Indy ao Brasil. “O Grupo Bandeirantes ficou devendo R$ 60 milhões aos organizadores da categoria por uma corrida que deveria ter sido feita na década passada em São Paulo, mas foi cancelada. Temem passar por isso de novo no País”, acredita. Outro problema envolvendo a categoria no Brasil ocorreu em 2015, quando, devido a atrasos nas obras do autódromo de Brasília e à falta de viabilidade financeira do Governo do Distrito Federal, a etapa brasileira foi cancelada.
A Fórmula Indy é disputada praticamente apenas nos Estados Unidos, com somente uma das 18 etapas deste ano ocorrendo no Canadá. No Brasil, a categoria já esteve entre 1996 e 2000, no Rio de Janeiro, e entre 2010 e 2013 em São Paulo. Além dos circuitos mistos, a Indy é conhecida por ter provas em pistas ovais, com a mais tradicional sendo as famosas 500 Milhas de Indianápolis.














