O Brasil inicia 2026 sob um cenário que exige leitura atenta e decisões mais conscientes. A taxa básica de juros, a taxa Selic, que encerrou 2025 em 15% ao ano, impôs um novo patamar ao custo do dinheiro e reposicionou o debate estratégico dentro das empresas. O ambiente não é de euforia, tampouco de pessimismo. É de cautela. Uma cautela calculada, discutida e cada vez mais presente nas mesas de decisão do país.
Esse sentimento aparece de forma recorrente nas conversas com diretores financeiros de inúmeros grupos empresariais, especialmente em encontros promovidos pelo IBEF, Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças. Independentemente do setor, a leitura converge. 2026 será um ano de cuidados. Um ano para proteger o caixa, acompanhar resultados com disciplina e ajustar o ritmo de crescimento à realidade de um capital que deve se manter caro, não apenas em relação ao histórico recente do país, mas também quando comparado a outras economias e aos nossos próprios vizinhos regionais.
A cautela, no entanto, não nasce apenas do nível elevado dos juros. Ela é reforçada por um conjunto de incertezas que se sobrepõem. Ano eleitoral, volatilidade política e os efeitos ainda em amadurecimento da reforma tributária criam um ambiente em que decisões estruturais exigem mais análise e menos impulso. Para muitas empresas, sobretudo as de capital nacional, mais dependentes do crédito doméstico, o momento pede precisão.
O custo do dinheiro deixou de ser um detalhe financeiro e passou a ser um fator central de estratégia. Financiamentos mais caros, capital de giro pressionado e investidores mais seletivos tornam qualquer projeto mais exigente em termos de retorno. Mesmo com expectativas de algum alívio ao longo do ano, a percepção predominante entre executivos é que a taxa Selic média anual deve permanecer elevada, próxima de 13%. Isso muda completamente a lógica de expansão.
Ainda assim, é fundamental distinguir cautela de falta de confiança. Cautela não é sinônimo de pessimismo. Em muitas dessas conversas, o otimismo segue presente. Há convicção de que bons frutos poderão ser colhidos, especialmente por empresas bem organizadas, com governança sólida e clareza estratégica. O ponto central está no timing. O primeiro semestre tende a ser mais conservador, dedicado a observar o comportamento da economia, acompanhar indicadores e identificar oportunidades que resistam ao alto custo do capital.
A reforma tributária adiciona um componente prático a esse processo de espera ativa. Muitas empresas ainda estão aprendendo uma nova forma de contratar fornecedores, estruturar cadeias produtivas e precificar produtos e serviços. Os impactos variam conforme o setor, mas o consenso é que ajustes serão necessários. Rever contratos, redesenhar fluxos e testar novos modelos tornou-se parte do cotidiano estratégico.
No setor automotivo, a combinação entre juros altos e crédito mais restrito ao consumidor exige controle rigoroso de estoques e margens. Na indústria de produtos, o foco recai sobre eficiência operacional, negociação com fornecedores e disciplina de custos. No setor de serviços, a prioridade é produtividade, previsibilidade de receitas e retenção de contratos. Em todos os casos, a lógica é semelhante. Crescer com responsabilidade, sem comprometer a saúde financeira.
O retrato de 2026, portanto, não é de paralisia. É de maturidade. As empresas brasileiras estão sendo forçadas a operar com mais método, mais análise e mais consciência de risco. Em um ambiente de capital caro, incerteza política e transformações estruturais em andamento, a cautela deixa de ser uma postura defensiva e passa a ser uma estratégia inteligente.
Quem conseguir atravessar esse período acompanhando resultados de perto, ajustando rotas e aproveitando oportunidades com critério tende a sair mais forte. Em tempos como este, saber esperar, saber escolher e saber executar bem pode ser o diferencial que separa quem apenas resiste de quem constrói valor no médio e longo prazo.

Fabiano Pedrassani, mestre em Finanças e Administração, Engenheiro, com especialização em Estratégia e Economia Internacional. Atua como conselheiro em empresas dos setores de serviços e importação e é CFO e General Manager no Grupo Osten BMW.














