“Para fazer escolhas éticas, você não pode ter dilemas entre o particular (amigo, família) e o geral.” A frase é simples, direta e ignorada constantemente. A citação está no livro “Arriscando a Própria Pele” e corrobora algo que, no Brasil, virou epidemia: o conflito de interesse institucionalizado. Não há remédio forte o suficiente, e o que se chama de compliance, aparentemente, em muitos casos, funciona como analgésico vencido.
Os casos recentes do Banco Master e do INSS, apenas os mais frescos na memória, escancaram a promiscuidade entre agentes públicos e privados. Amigos, parentes, colegas e parceiros de conveniência formando alianças para enganar a sociedade. E nós, espectadores, quando se descobre já nem sabemos mais em qual operação da Polícia Federal estamos. A sensação é de congelamento coletivo: assistimos às notícias como se fossem entretenimento. Seria esse o novo normal?
A Operação Compliance Zero expôs uma verdade incômoda: talvez não exista compliance de verdade em muitas empresas. Existem documentos e meras políticas. Políticas bonitinhas até serem confrontadas com o conflito de interesse entre as partes. Muitas vezes, essas políticas são um kit padrão feito por consultores, copiado da internet e, que agora pode ser inclusive feito pela IA.
Todas as empresas que estampam os noticiários de fraudes ou “supostos erros contábeis” possuíam políticas de compliance divulgados em seus sites. Americanas, CVC, Ambipar, Mateus, Reag, Banco Master, entre outras.
No final, quando o compliance chega e tenta fechar a porta, vale o jeitinho, o atalho, o acordo velado.
E o que dizer da frase do doleiro Vinícius Claret, o “Juca Bala” mencionado no livro Antologias da Maldade II “O compliance das empresas não vai funcionar se a pessoa não tiver caráter.”
É duro, mas é factual. Política de compliance não cria caráter, mas apenas tenta conter a falta dele.
Na CPMI da Fraude do INSS, um parlamentar mostrou ao advogado o próprio código de ética do escritório e perguntou se ele seguia o documento. A resposta, a de sempre: “Por orientação dos meus advogados vou permanecer em silêncio”.
O problema é mais profundo e mais feio do que gostamos de admitir. O compliance não avança porque sua maior ameaça está onde ele não alcança: dentro das pessoas.
Enquanto o conflito de interesse continuar sendo tratado como detalhe, como algo normalizado e até esperado, nenhuma política irá funcionar. Não há código que resista a quem acha que ética é opcional. Principalmente quando os
conflitos vêm da alta liderança e da própria governança corporativa!
Algumas perguntas para reflexão:
Estamos combatendo essa praga ou fazendo parte? Temos, em nossas relações e/ou na nossa empresa, conflitos de interesses capazes de nos levar a perda de reputação, financeira, entre outras?

MARCELO JOSÉ DE AQUINO,
Sócio da Ganplo Treinamento e Governança, membro de Conselho de Administração e consultivo de empresas














