Quem é dono de quem?

485

Hoje, nada se faz sem ter uma empresa, estatal ou privada, envolvida. Apesar da sua completa influência na rotina de vida das pessoas, a empresa é um fenômeno recente no mundo, com alguns poucos séculos.

Os governos, as famílias e as guerras, por exemplo, se observam desde os primeiros registros da humanidade. O formato foi evoluindo gradativamente, de artesanal e individual, até o fim do século 18 (até por volta de 1780), para industrial e comercial, com negócios primários que já se serviam de trabalhadores contratados para produzir (1780 a 1860), para depois surgirem as empresas multinacionais (pós-guerra, de 1945-1980) e as gigantes da tecnologia (1995-2015).

O domínio imposto pelas corporações empresariais (produtivas e financeiras) se deu no último século, com aceleração maior com a internacionalização da economia nas últimas cinco ou seis décadas. As regras do jogo já não são construídas como no passado. Antes, governantes, reis e imperadores tinham poder (político) e riqueza (econômica). Hoje, o político depende cada vez mais do econômico – lícita e ilicitamente.

Ocorreu, com o surgimento da indústria inglesa, o mais impactante choque do processo produtivo da história da sociedade. Foi aí, talvez, o parto da empresa. Até então, o modelo produtivo artesanal era centrado na zona rural, os produtos ligados à agropecuária, feitos manualmente, de forma individual (sem funcionários), sem salário ou mesmo moeda – produzindo-se para realizar trocas. De um dia para o outro, surgiram empresários, trabalhadores, cidades, dinheiro, bancos, máquinas, salários, lucro, sindicatos e greves.

O registro de empresas começou a ser feito, no País, somente em meados do século 19, o que deu vida jurídica e oficial para a nova “categoria” de agente econômico que se formava. O registro é a certidão oficial de abertura do negócio, ato cartorial de nascimento.

As empresas nasceram neste terreno novo. Foi uma virada de página na história humana. As empresas passaram a investir no desenvolvimento de novos produtos – e novos comportamentos. Tudo virou produto e ganhou preço. A inovação mudou a forma de comer, conviver, comunicar, trabalhar, acumular, plantar, colher, vestir, higienizar, transportar, locomover, divertir, investir …

No cenário atual, algumas empresas são mais ricas e poderosas que vários países. As fusões vão concentrando ainda mais este poder.

Neste ritmo, em que empresas acumulam riquezas e Estados, déficits, dívidas e desvios, uma evolução natural é o forte engolir o fraco.

Isso pode demorar um século, mas a pobreza ética e a fome pela corrupção dos políticos facilitam um distanciamento do Estado tradicional da sociedade, favorecendo um modelo de autogestão ou misto entre público e privado, que pode se estabelecer. Chegará o dia em que a população poderá demitir o prefeito, o governador ou o presidente sem esperar uma nova eleição.